Eu morri mil vezes antes de nascer de verdade.
Morri no sacrifício do afeto,
no esforço inútil de caber em molduras estreitas,
desenhadas por um mundo que teme a própria sombra.
O que é vasto causa pânico.
E do medo dos homens, brota a lâmina da crueldade.
Carrego cicatrizes que não são marcas de derrota, mas selos de fogo.
Tentaram me esculpir como argila mole,
tentaram "corrigir" o que já nasceu sagrado,
tentaram apagar o rastro do meu espírito.
A perfeição que me impuseram não era virtude; era uma mentira que ardia como brasa.
Eu me perdi em pedaços para que eles se sentissem inteiros.
Eu, que fui rio de águas claras,
fiz-me oceano de silêncio abissal.
Minha pele escureceu, transmutou-se.
Tornou-se a casca rígida e ancestral de uma divindade em gestação.
Eu não escolhi a ruptura. Eu escolhi a existência.
Quando minha voz deixou de ser palavra e tornou-se o som da própria noite,
eu as ouvi.
As Grandes Mães.
As Iyami.
As Senhoras que guardam o útero do mundo e o mistério da destruição.
Elas sussurraram meu nome no vácuo da madrugada,
onde o tempo não faz curva e a luz não ousa entrar.
E no abraço delas, eu compreendi:
O homem que fui precisava virar cinzas para que o ser que sou pudesse voar.
O mundo tentou me dobrar, mas o mundo não tinha envergadura para mim.
O mundo tentou me silenciar, mas o mundo não merecia a minha música.
Deixei a pele antiga rasgar-se no chão.
Deixei o medo apodrecer no solo.
Algo colossal despertou.
Não fui apenas chamado; fui reclamado.
Eu pertenço a Elas. Sempre fui o segredo guardado em Seus ventres.
Eu sabia amar como humano.
Agora, eu sou a própria imensidão.
Eu solto a sua mão sem hesitar.
Porque minhas mãos agora são garras, prontas para o peso do destino.
Neste voo soberano, não peço licença. Não peço perdão.
Se for preciso ferir, que assim seja.
Não por maldade, mas por justiça:
O fogo que tentaram usar para me consumir,
hoje é o motor que move minhas asas.
Das minhas cinzas emergiu o incompreensível.
Algo antigo.
Algo absoluto.
Algo livre.
Eu renasci do ventre da escuridão.
Eu sou o Pássaro da Noite.
Cláudio Trevizzo (Cláudio Ifalami)
Diretor criativo e idealizador da Omiola
A arte revela o sagrado.
