Manifesto: Ouro, Ferro e a Fúria das Águas
Por Cláudio Ifalami
Dizem que Ela é o rio. Dizem que Ela é o espelho, a doçura do mel e a fluidez que sustenta a vida. Eu também acreditei. Com as mãos guiadas pela devoção, moldei o que julguei ser sua essência: um bracelete delicado, um reflexo límpido, o movimento suave das marés e o repouso do coral. Uma joia para a “Água da Vida”.
Mas Òsun disse não.
E no silêncio desse “não”, o espelho se quebrou para revelar o que a beleza muitas vezes esconde.
1. Além da Fluidez
Òsun me ensinou hoje que sua morada não é apenas o leito calmo, mas a força que rompe pedras. Ela não quer ser apenas adornada; Ela quer ser reconhecida em sua soberania. Se toda primeira criação da Omiola pertence a Ela, então essa criação deve carregar o peso de sua coroa.
2. A Deusa é Poder (Agbára)
Ela me lembrou que é Iyalode. Que antes do espelho, houve a estratégia. Antes do perfume, houve o veneno e a cura. Òsun não é apenas o reflexo do belo; Ela é o brilho do metal que corta e a autoridade que comanda os destinos. Ela é agua que invade a casa do traidor e o afoga.
“Não sou apenas a água que sacia,” Ela sopra no meu ouvido. “Sou a força que inunda. Sou o poder que governa.”
3. O Sacrifício do Refazer
Recolho as peças. Derreto o conceito. O que era apenas “delicado” agora busca a têmpera da coragem. Refazer não é um erro, é um rito de passagem.
Vou buscar nas profundezas o que a Deusa deseja. Não desenharei mais apenas uma joia; forjarei um estandarte. Se Ela é o grande amor da minha vida, minha arte deve ser capaz de sustentar não apenas sua doçura, mas sua fúria e seu comando.
Òsun é força. Òsun é poder. E a Omiola agora se curva à sua verdadeira majestade.
Òsun é fúria. O rio que invade, que toma, que cobra, que restaura o equilíbrio.
Assim é. Assim sempre foi. Assim continuará sendo.
Ìyá mi Òṣun, mo júbà.
Òṣun olómi tútù, aláṣẹ, Iyálọ́de, dona do ouro e dos destinos.
Esta joia não é ornamento.
É oferenda. É invocação. É testemunho.
Ela nasce no fogo,
é lavada nas águas,
e consagrada no axé.
Quem a veste, não apenas carrega beleza —
carrega presença.
ÒMÍ ÒLÁ não cria para o olhar.
Cria para o espírito.
—
Cláudio Trevizzo (Cláudio Ifalami)
Diretor criativo e idealizador da Omiola
“A arte revela o sagrado.”
